IPv6 para Provedores: Guia Prático de Implantação

IPv6 para Provedores: Guia Prático de Implantação

IPv6: Não É Mais Opcional para Provedores

O CGNAT é um band-aid. Funciona, resolve o problema imediato de escassez de IPv4, mas adiciona complexidade, custo de hardware, latência e uma montanha de logs que você precisa guardar por força de lei. O IPv6 é a solução definitiva: 340 undecilhões de endereços — o suficiente para dar um IP público a cada grão de areia do planeta.

Em março de 2026, o Brasil tem aproximadamente 45% de adoção IPv6 nos grandes operadores (dados LACNIC). Provedores regionais estão atrás — muitos ainda nem começaram. Se você é um deles, este guia é para você.

Passo 1: Obter Seu Bloco IPv6

Se seu provedor já tem ASN e bloco IPv4 no LACNIC/NIC.br, solicitar IPv6 é simples:

  1. Acesse o portal LACNIC (milacnic.lacnic.net) com suas credenciais
  2. Solicite um bloco IPv6 — provedores recebem no mínimo um /32
  3. O processo leva de 3 a 10 dias úteis
  4. Não há custo adicional além da anuidade que você já paga

Um /32 dá 65.536 redes /48 — cada cliente pode receber um /48 (padrão RIPE/LACNIC) ou /56 (mais comum em ISP residencial). Com /56 por cliente, um /32 atende 16 milhões de assinantes.

Se você tem menos de 5.000 assinantes e ASN próprio, um /32 vai durar a vida inteira do seu provedor. Não economize — peça o /32 completo.

Passo 2: Escolher a Estratégia de Implantação

Dual-Stack (Recomendado)

Cada assinante recebe IPv4 (via CGNAT ou público) e IPv6 simultaneamente. É a abordagem mais segura:

DS-Lite (Dual-Stack Lite)

O CPE do cliente encapsula IPv4 dentro de IPv6. O CGNAT é feito centralmente no AFTR (Address Family Transition Router). Pouco usado no Brasil — exige CPE compatível e AFTR dedicado.

NAT64 + DNS64

Clientes recebem apenas IPv6. Acesso a sites IPv4 é feito via tradução NAT64. Agressivo demais para ISP residencial — muitos dispositivos IoT e apps legados quebram. Use apenas em cenários controlados (servidores, data centers).

Para 99% dos provedores brasileiros, Dual-Stack é a resposta certa.

Passo 3: Configurar IPv6 no MikroTik (PPPoE + DHCPv6-PD)

A maioria dos ISPs brasileiros usa PPPoE. No MikroTik, o IPv6 é distribuído via DHCPv6 Prefix Delegation (PD) dentro do túnel PPPoE.

3.1 Criar o Pool IPv6

/ipv6 pool
add name=pool-ipv6-clientes prefix=2001:db8::/32 prefix-length=56

(Substitua 2001:db8::/32 pelo seu bloco real alocado pelo LACNIC.)

3.2 Configurar o DHCPv6 Server

/ipv6 dhcp-server
add name=dhcpv6-clientes interface=all-ppp address-pool=pool-ipv6-clientes

3.3 Configurar o PPPoE Profile

/ppp profile
set default-encryption dhcpv6-pd-pool=pool-ipv6-clientes

Ou, se usa profiles separados por plano:

/ppp profile
set plano-100m dhcpv6-pd-pool=pool-ipv6-clientes
set plano-200m dhcpv6-pd-pool=pool-ipv6-clientes
set plano-500m dhcpv6-pd-pool=pool-ipv6-clientes

3.4 Habilitar ND (Neighbor Discovery) e Rota

# Rota para o bloco IPv6 (apontar para upstream)
/ipv6 route
add dst-address=::/0 gateway=fe80::1%ether1-upstream

# Garantir que o router aceita e envia RAs (Router Advertisements)
/ipv6 nd
set [find] advertise-dns=yes

3.5 Firewall IPv6

Não esqueça do firewall. IPv6 sem firewall expõe os clientes diretamente:

/ipv6 firewall filter
add chain=forward connection-state=established,related action=accept
add chain=forward connection-state=invalid action=drop
add chain=forward src-address=::/0 dst-address=!fe80::/10 \
    in-interface=ether1-upstream protocol=icmpv6 action=accept
add chain=forward in-interface=ether1-upstream action=drop
add chain=input connection-state=established,related action=accept
add chain=input protocol=icmpv6 action=accept
add chain=input in-interface=ether1-upstream action=drop

Atenção: nunca bloqueie ICMPv6 completamente — IPv6 depende dele para funcionar (NDP, Path MTU Discovery).

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Passo 4: Configurar IPv6 no RADIUS

Se seu RADIUS (FreeRADIUS, Huawei iMaster NCE, etc.) controla a autenticação PPPoE, configure os atributos IPv6:

# No raddb/users ou no banco de dados RADIUS
# Delegated prefix (DHCPv6-PD)
Framed-IPv6-Prefix := "2001:db8:abcd::/48"

# Ou, para delegar dinamicamente do pool:
Framed-IPv6-Pool := "pool-ipv6-clientes"

# DNS IPv6 para o cliente
DNS-Server-IPv6-Address := "2001:4860:4860::8888"

No FreeRADIUS, o dicionário já inclui os atributos RFC 6911. Se usa um RADIUS mais antigo, verifique se o dictionary está atualizado.

Passo 5: Configurar IPv6 no Huawei NE8000 (BRAS)

Se seu BRAS é um NE8000, a configuração de dual-stack PPPoE envolve:

# Pool IPv6
ip pool ipv6-pool-clientes bas local
 ipv6-prefix-pool pool6-pd
  prefix 2001:db8::/32 delegated-prefix-length 56

# No domínio de autenticação
aaa domain default
 ip-pool ipv4-pool
 ipv6-pool ipv6-pool-clientes

# Na interface BAS
interface Virtual-Template 1
 ipv6 enable
 ipv6 nd ra interval 30
 ipv6 dhcp server pd-delegate

# Rota IPv6
ipv6 route-static :: 0 GigabitEthernet0/0/0 fe80::upstream-gw

Consulte a documentação específica do seu firmware NE8000 — a sintaxe varia entre VRP V800R011 e versões mais recentes.

Impacto do IPv6 na Guarda de Logs

Aqui está o ponto que muitos provedores não percebem: IPv6 elimina a necessidade de logs de NAT, porque cada cliente tem IP público próprio. Sem NAT, não há tradução de porta para registrar.

Mas atenção: o Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014, Art. 13) ainda exige a guarda de registros de conexão por 1 ano. Mesmo com IPv6, você precisa registrar:

Esses dados vêm do RADIUS accounting (radacct) — que você já tem se usa PPPoE. A boa notícia: é infinitamente mais simples que logs de CGNAT. Um registro por sessão, não milhões de registros de tradução NAT por hora.

IPv6 não elimina a obrigação legal de guardar logs. Mas simplifica drasticamente o que você precisa guardar.

Estratégia de Rollout Gradual

Não ligue IPv6 para todos os clientes de uma vez. Siga este plano:

  1. Semana 1-2: Configure IPv6 na infraestrutura (roteadores, BRAS, RADIUS). Teste internamente.
  2. Semana 3-4: Habilite para 5-10% dos clientes (um bairro ou OLT). Monitore suporte técnico.
  3. Semana 5-8: Expanda para 50%. Ajuste firewall e DNS conforme necessário.
  4. Semana 9-12: 100% dos clientes em dual-stack.

Monitore métricas durante o rollout:

Problemas Comuns e Soluções

ProblemaCausaSolução
Cliente não recebe IPv6CPE não suporta DHCPv6-PDAtualizar firmware ou trocar CPE. Roteadores muito antigos não suportam.
IPv6 funciona mas sites IPv4 quebramMTU incorreto no túnel PPPoEConfigurar MSS clamping: /ipv6 firewall mangle add chain=forward protocol=tcp tcp-flags=syn action=change-mss new-mss=clamp-to-pmtu
Tráfego IPv6 não sai para internetUpstream não anuncia seu bloco IPv6 via BGPConfigurar sessão BGP IPv6 com upstream e anunciar seu prefixo
DNS não resolve via IPv6Cliente recebe IPv6 mas DNS é só IPv4Configurar DNS recursivo com IPv6 (ex: 2001:4860:4860::8888) no RA ou DHCPv6

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Perguntas Frequentes

Preciso de IPv6 se já tenho CGNAT funcionando?

CGNAT é uma solução temporária para a escassez de IPv4. Funciona, mas adiciona latência, custo de hardware, complexidade operacional e volume massivo de logs. O IPv6 elimina tudo isso. Além disso, grandes provedores de conteúdo priorizam IPv6 — seus clientes podem ter experiência melhor com sites como Google e Netflix via IPv6.

Meus clientes vão perceber a mudança?

Em dual-stack, não. O sistema operacional do cliente (Windows, macOS, Linux, Android, iOS) prefere IPv6 automaticamente quando disponível. Sites com IPv6 são acessados diretamente, sites sem IPv6 continuam via IPv4/CGNAT. É 100% transparente.

Quanto custa implementar IPv6?

O bloco IPv6 não tem custo adicional se você já paga anuidade LACNIC/NIC.br. O custo real é tempo de engenharia para configurar roteadores, BRAS, RADIUS e testar. Em um provedor pequeno (até 5.000 assinantes), um engenheiro dedica de 2 a 4 semanas. Não há custo de hardware adicional — os equipamentos que você já tem suportam IPv6.

Com IPv6 ainda preciso guardar logs?

Sim. O Marco Civil (Art. 13) exige guarda de registros de conexão por 1 ano, independente de IPv4 ou IPv6. A diferença é que com IPv6 você guarda apenas o registro RADIUS (qual cliente recebeu qual prefixo e quando), que é muito mais simples e leve que milhões de registros de tradução NAT por hora.

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